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Confiança do industrial paranaense cai no primeiro trimestre de 2022, aponta pesquisa da Fiep

Confiança do industrial paranaense cai no primeiro trimestre de 2022, aponta pesquisa da Fiep

Resultado pode estar atrelado ao conflito no leste europeu, à alta excessiva no preço dos combustíveis e nos custos de produção.

A pesquisa mensal feita pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que o industrial do Paraná está receoso com o futuro da economia e dos negócios em 2022. Pelo segundo mês seguido, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) caiu. Está em 53,9 pontos, ainda na área de otimismo (acima dos 50 pontos), numa escala que vai de zero a 100. O resultado mostra uma tendência de queda, já que os números caíram 4,8 pontos em relação a janeiro e três pontos na comparação com fevereiro, somando 58,7 e 56,9 pontos, respectivamente.

Na comparação com o mesmo período de 2021, a diferença aumenta. Em janeiro do ano passado, o ICEI ficou em 67,8 pontos; em fevereiro, em 63,8; e, em março, segunda onda da covid-19 no Brasil, havia fechado em 53,3 pontos. Embora os números não pareçam favoráveis agora, o indicador ainda está bem acima do registrado no pior momento da pandemia, em maio de 2020, quando caiu a 31,6 pontos.

A alta dos combustíveis se reflete diretamente no custo da produção das indústrias, que pode ser repassado ao consumidor final (Foto: divulgação)

O economista da Fiep, Marcelo Alves, sugere que os resultados de agora já possam ser reflexo do conflito entre Ucrânia e Rússia, no leste europeu, e dos frequentes reajustes no preço dos combustíveis aqui no Brasil. “Nitidamente há uma piora de cenário. A realidade para o empresário, que já era duvidosa com relação à recuperação mais rápida da economia no ano passado, ficou mais incerto porque a guerra tem impactos globais e ainda não se sabe a extensão deles”, resume.

Os dois países não estão entre os grandes parceiros comerciais do Paraná no ano passado. A Rússia foi só o 19º maior destino do produtos paranaenses em 2021, respondendo por 1,2% da pauta de exportações, e o sétimo maior nas importações, sendo responsável por 2,8% da pauta. Já a Ucrânia, figura na 67ª colocação entre os destinos das exportações estaduais, respondendo por 0,15% da pauta, e em 71º nas importações, representando 0,02% da pauta em 2021. Mesmo assim, o embate entre os dois países tem impacto expressivo na economia do estado.

“Já são mais de 30 dias de conflito e crescem as incertezas com relação ao PIB Mundial porque são muitas sanções e grandes economias estão envolvidas nessa questão. Some-se a isso que o mercado de grãos, fertilizantes, gás e petróleo, dos quais Rússia e Ucrânia são protagonistas, já estão sendo afetados por conta do conflito e isso pode interferir na oferta e no preço desses produtos no mercado internacional”, completa.

Não só indústrias que importam insumos e matérias-primas de alta tecnologia e produtos químicos são afetadas pela alta cotação do barril de petróleo no mercado internacional. “É um efeito cascata. Além da produção de itens como plástico, por exemplo, toda a logística de escoamento da produção tem como base o transporte rodoviário. O diesel mais caro aumenta o preço do frete e os custos do empresário que nem sempre pode repassá-los adiante para não perder competitividade”, reforça Alves.

Observando a composição do ICEI, tanto o indicador de condições, que avalia a economia e os negócios nos últimos seis meses, quanto o de expectativas, referente aos meses futuros, contribuíram para a queda no indicador de confiança em março. O primeiro ficou na zona de pessimismo, com 45,3 pontos, enquanto o de expectativas chegou a 58,2 pontos. Em fevereiro, o índice de condições estava 48,7 e o de expectativas em 61 pontos.

“O empresário tem uma percepção de impacto negativo na sua atividade que é remanescente do início da pandemia, quando houve quebra das cadeias globais de valor e escassez de matérias-primas com posterior atraso nas entregas”, lembra o economista. “A realidade atual imprime ainda mais desconfiança com relação ao transporte e outros impactos que podem vir a sofrer. O momento pré-eleitoral também deve interferir na atividade nos próximos meses e essa desconfiança se reflete na pesquisa”, complementa o economista.

Reação na indústria

A alta dos combustíveis se reflete diretamente no custo da produção das indústrias, numa cadeia que se estende desde a matéria-prima até o consumidor. Algumas empresas apostam na criatividade e inovam nas estratégias para conter alta de preços logísticos. A GEMÜ do Brasil, fabricante de válvulas do setor de máquinas e equipamentos, é um exemplo. Tanto na fábrica em São José dos Pinhais (PR) quanto no escritório em São Paulo, o efeito é visível por conta do aumento no custo do transporte de 13,5% desde o início do ano, como explica a gerente de Supply Chain da GEMÜ, Ureo Pereira. “Temos frota própria, mas somente para atendimento regional. Além do envio do produto ao comprador e da logística para recebimento da matéria-prima dos fornecedores, o processo produtivo da GEMÜ engloba também o transporte de peças para beneficiamento – com o envio de materiais a processos em terceiros, como revestimento ou pintura a pó”, enumera.

Gerente de Supply Chain da GEMÜ, Ureo Pereira: empresa tem frota própria para atendiemnto regional.

A alta dos combustíveis também gera aumento de preços da matéria-prima, já que os fornecedores da indústria são igualmente impactados, tanto na logística nacional quanto nas importações – onde está o maior gargalo. “Trata-se de uma cadeia, em que os processos de importação e exportação seguem ligados, visto que as companhias aéreas também anunciaram aumento de combustível. Em relação a isso, a estratégia da GEMÜ envolve planejar os embarques e consolidar pedidos para diminuir o volume de envios, além de aumentar os estoques, optando pelo transporte marítimo quando possível”, explica Ureo.

Outras estratégias para atuar no novo cenário incluem a análise e revisão de todos os reajustes solicitados e a otimização do uso da frota própria e dos envios de peças a terceiros, de forma a manter a produção enxuta e inteligente. “As conjunturas internacionais são voláteis e torcemos para que acordos de paz em breve reduzam a tendência de inflação”, espera a gerente.

Observatório Sistema Fiep
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